As pontes do IP4
Da demagogia à realidade
   
Artigo de opinião
Publicado em 26/01/1999

(Original em PDF)

Foi levantada uma questão relativa à eventual "inviabilização" de futura "duplicação" do IP4, pelo simples motivo de não se dotarem de largura suficiente as duas pontes actualmente em construção no trecho Bragança-Quintanilha, isto para, alegadamente, um dia se poder vir a transformar em auto-estrada.
Ora, parecendo-me ser esta uma falsa questão, acho oportuno tecer aqui alguns comentários, até porque estranhei quer o excessivo sensacionalismo com que a comunicação social tratou o assunto, quer ainda a aparente demagogia com que os políticos locais o criticaram.
Até o Bispo da Diocese veio a terreiro alegar a "falta de visão" das entidades responsáveis pelas obras públicas, o que terá acentuado o carácter pseudo-dramático da questão.
Começaria por pôr em dúvida a validade do conceito de "duplicação" dos IP's, habitualmente considerado solução para o aumento futuro da capacidade da rede viária. Com efeito, será até tecnicamente desaconselhável que se opte pela reconversão de certos troços, nomeadamente quando se situam em zonas de orografia acidentada. É que os actuais IP's são, na generalidade dessas zonas, concebidos com as características de traçado próximas dos limites aceitáveis para a respectiva categoria, cuja velocidade de projecto de 100 km/h condiciona, por exemplo, os raios das curvas, atingindo-se ainda rampas de considerável inclinação, como é o caso do troço em construção.
Nas auto-estradas terão que ser consideradas velocidades bastante superiores às dos IP's, o que leva a geometria dos traçados consideravelmente diferente, não se tolerando inclinações excessivas dos traineis, além de outras características a que estas rodovias de grande capacidade devem obedecer, tornando, assim, muito ambíguo o conceito de via com "perfil de auto-estrada" que habitualmente é referido na opinião pública. Parece que se limitam a considerar que basta que uma estrada tenha um perfil transversal com dupla faixa de rodagem e separador central para ser uma auto-estrada, o que não é verdade.
A largura adicional de escassos 0,75 metros para cada lado do tabuleiro das pontes, que se vem referindo como sendo suficiente para permitir a futura instalação de 4 vias de circulação, constitui um erro de perspectiva, pois tal largura não permitiria a instalação das necessárias bermas laterais, com funções de bandas de paragem de emergência, nem um adequado separador central. Também o custo referido de 150 mil contos para se incluir o alargamento, não passa de um custo meramente teórico, avaliado ainda antes de terem os trabalhos sido iniciados, não concertado com a empresa empreiteira, mas que na fase do decurso dos trabalhos se tornaria substancialmente superior, dada a inerente alteração das condições técnicas da empreitada.
Ora, ao contrário do que vem sendo defendido, a falta de visão que se pode alegar é, quanto a mim, a de se querer obter uma auto-estrada a partir da dita "duplicação" deste trecho do IP4, o que não deixaria de ser uma solução atamancada, sem qualquer semelhança com uma verdadeira auto-estrada, cómoda e segura. O problema do eventual aumento do tráfego que leve à necessidade de constituição futura de um corredor viário de alta capacidade, de interesse internacional, deverá passar pelo seu estudo em devido tempo, com traçado novo, passando mesmo algo distante de Bragança, eventualmente bastante mais a sul desta cidade, por parecer o caminho mais directo para Espanha. Entre outros benefícios óbvios, nomeadamente para a nossa região, estariam os factos de se evitarem os incómodos inerentes aos trabalhos terem que decorrer com a via em serviço e de resultar um acréscimo de rede viária.
No fundo, o que parece estar em causa é o tráfego futuro, que será preponderantemente originário do litoral com destino ao estrangeiro, não parecendo lógico que sejam as entidades desta região a preocuparem-se demasiado com esta questão que deverá ser, antes de mais, tratada no âmbito de uma adequada estratégia nacional de transportes. É que as políticas actuais e futuras no que diz respeito aos transportes, de mercadorias e passageiros, poderão inflectir, por exemplo, no sentido do reforço da vertente ferroviária, sendo ainda determinante a concretização das restantes rodovias internacionais previstas para o norte do país, para se admitir que não se venham a verificar crescimentos imprevistos dos volumes de tráfego neste troço do IP4. Será, então, prematuro que se pense na inevitabilidade desse crescimento excepcional, a médio prazo.
Julgo, então, que não se deveria ter dado este relevo à questão pois pode até ficar a ideia nos governantes de que não temos mais nada que reivindicar para a nossa região, caindo-se eventualmente no ridículo de as nossas preocupações se estarem a voltar para a defesa dos interesses das regiões do litoral norte que serão certamente as mais beneficiadas com este corredor rodoviário.

 
In jornal "A Voz do Nordeste" de 26 de janeiro de 1999
     
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